Olá pessoal
Com a entrada do mes de Junho (que começa a ser associada ao famoso fim de semana do Memorial Day – e continua a ser interessantíssimo ver como lida a América contemporânea com a questão do heroísmo de morrer em combate em nome da liberdade e o American Way) estou a começar a entrar em estágio para o meu regresso a Portugal. Após tantos meses de estadia aqui, estou pronto para voltar a Lisboa, Cascais, Atrozela, Porto Covo. Tudo sítios de que tenho saudades. Saudades inesperadas, mas bem vindas. Vontade de estar com a família e amigos, e poder fazer todas aquelas pequenas coisas, que ganham tanta importância depois de tanto tempo sem as ter. Jogar basketball com os amigos, almoçar na Praça das Flores, comer um gelado na Santini, apanhar sol em Areias Brancas. Está tão perto que consigo sentir o gosto.
Entretanto as coisas avançam normalmente por aqui. O meu primeiro artigo científico começa a mostrar os contornos finais, e está para breve ser submetido a um jornal da especialidade. Outra boa noticia é que fui convidado para ser um revisor de artigos científicos para o conceituado jornal de Medicina e Ciência em Desporto e Exercício (Medicine & Science in Sports & Exercise – no original). Não vou aqui aborrecer-vos com a importância deste convite, e com a honra que é fazer parte do conselho científico daquela que é uma das publicações mais conceituadas a nível mundial, mas apenas dizer que, com o sucesso, aumentam as responsabilidades. E aqui entre nós, que mais ninguém está a ler, acabei e recusar um artigo submetido para apreciação por causa de uma incorrecção ética que não pode ser aceite numa publicação científica. O que salva a coisa é que, o autor de um artigo nunca sabe que é que é o revisor do mesmo, senão, começava a receber e-mail pouco agradáveis... estou a brincar.
E ao actualizar o meu relatório de actividades anual (obrigações institucionais oblige) começo a ver algum dos frutos da minha estadia aqui. Pena é que, o mais certo é ter todo este currículo... para concorrer à EB 2.3 da Picheleira : (
Enfim.
E hoje temos crónicas. Já fazia algum tempo que não escrevia neste formato, como tal, cá vai.
Abaixo de cão
Dor de dentes
Localizada. Intensa. Incomodativa. Mais uma vez a experiência de ter uma infecção na raiz do dente fez as delícias aqui do vosso correspondente. Mas não escrevo isto para fazer queixas, apenas para constatar mais uma vez o obvio. O excesso de capitalismo também não é a solução. Para reparar um dente neste país, ficava-me mais barato ir a Portugal, desvitalizar o dente, e voltar para a América, do que trata-lo aqui. E todos aqueles que não podem ter seguro de saúde dentário? Todas as minorias que não ganham assim tanto para poderem pagar quase 10 contos por mês para ter um desses seguros? Essas pessoas acumulam-se numa sala de espera de uma Escola de Medicina Dentária, onde três dezenas de pessoas esperam pacientemente par serem atendidas na base do “quem chegou primeiro é atendido primeiro”. Para um Português a coisa não é muito diferente de ir a uma urgência no Centro de Saúde de Alcabideche, mas aqui, a sensação que se têm é que pertencemos a uma casta inferior da sociedade.
Cão
UConn em Junho
A Universidade parece uma cidade fantasma. Com o final das aulas, os milhares de alunos vão para casa, e quem fica por aqui são os alunos de Doutoramento, os Professores e os funcionários. Numa Universidade como a Faculdade de Motricidade Humana, só estes davam para encher um terço da escola, mas claro, o mesmo não se passa aqui. A Universidade é um grande espaço vazio, entrecortado por jardineiros atarefados a cortarem relva, compor os canteiros, a limpar os passeios. Os edifícios brilham com a luz do sol reflectida nas fachadas envidraçadas, os esquilos e os pássaros mostram o contentamento com o chegar do Verão. Algumas pessoas (poucas) correm, outras sentam-se na relva, outras procuram uma sombra e lêem um livro. É incrível como esta terra sobrevive ao Inverno. E não exagero. Mas depois de tanto cinzentismo, tanto frio e desolação, é bom ter o Verão de volta. É pena é o preço que têm de se pagar, com tantos meses de Inverno.
Acima de cão
FCP
Pooooooooooooooorto. Ok, ok. Eu não sou fê-cê-pê (alias, soccer começa a ser uma memória perdida num turbilhão de tanto desporto made in USA), mas sendo Português (especialmente aqui nas terras da América, onde a falta de reconhecimento do resto do mundo, ou pelo menos aquele que não interessa directamente aos Americanos, é gritante) é sempre bom ver o nome de Portugal a ser pronunciado na televisão. E ainda por cima, naquele que é o segundo canal de desporto mais visto por aqui (a ESPN2, o equivalente a CNN só de desporto). E que delicia ver os comentadores a falar do nosso país. Claro que o tema era da noite era o EURO, mas qualquer coisa serve. Infelizmente (ver o abaixo de cão), por causa de tanto desconforto, e de duas noites seguidas sem o descanso devido, na quarta-feira, quando me instalei confortavelmente num dos cadeirões que temos no laboratório, só consegui “sobreviver” à primeira parte. Com o intervalo, infelizmente, vi o jogo “para dentro”. Adormeci, ignominiosamente, com uma falta de patriotismo e desportivismo vergonhosa. A 5 minutos do fim sou acordado por um colega meu, que me transmitia os seus parabéns. “Obrigado”, dizia eu. À espera de ver a taça a ser erguida mais uma vez pelos azuis e brancos, pensava que tenho de pedir a um dos meus amigos que tenha gravado o jogo, para me mostrar os dois golos da segunda parte. Oh well. Apanho uma barrigada de golos agora a partir de Junho.
Carpe diem, esta é a nossa vida e termina a cada minuto que passa.
Ricardo Silvestre