Thursday, June 03, 2004

Uma opiniao publicada no site do JPC - jpcoutinho.com

AO LER A CRÓNICA DO CARLOS, o meu sangue ferve. Não por causa da opinião do Carlos, claro. Estou totalmente de acordo com a sua análise e as suas conclusões, mas por causa do tema: obesidade. Esta é a minha área de investigação, e também de preocupação. O Carlos apresentou algumas das razões absurdas que a sociedade tentar criar para explicar a epidemia da obesidade. Posso até acrescentar mais algumas: o fantasma genético (ler Claude Bouchard ou Per Bjorntorp) ou as teorias de regulação de peso corporal (James Hill) ou o metabolic imprint do processamento de macro nutrientes. Mas a verdade é muito mais simples que isso. Não se pode ingerir mais calorias do que as que gastamos. Não se pode comer que nem um javardo enquanto se muda os canais na televisão. Ponto final, parágrafo. Claro: pode-se sempre apontar o dedo às grandes companhias alimentares, que continuam a aumentar os níveis de açúcares e gorduras na comida. Podemos até falar da industrialização da sociedade e da redução da actividade física. Podemos falar nessas coisas todas, mas a raiz do problema (como o Carlos referiu) é o abusar da fartura. É a inconsciência do indivíduo e a desresponsabilização do Estado. Aqui na América, ainda se percebe, a saúde é paga e bem paga (e mesmo assim as pessoas não se interessam! A não ser quando acontece o primeiro enfarte de miocárdio), os lobbies são poderosos, a publicidade esmagadora, etc. Mas em Portugal, não se pode cometer os mesmos erros que nos EUA, nem que seja pelos custos que isso vai trazer para o Estado. As companhias de fast food e de video games vieram substituir os hábitos saudáveis que existiam antes (e não é preciso ir muito atrás, a década de 80 serve perfeitamente) o que causa o disparar de valores de obesidade em crianças. Crianças essas que serão os doentes daqui a 20 anos. E o que faz o Estado Português? Esconde-se timidamente em «Dias do Coração» e da «Obesidade» e em campanhas inconsequentes aqui e ali. Em Portugal existe alguma cultura de saúde? De prevenção? De esclarecimento? De hábitos, de exercício e saúde? Infelizmente, tudo isto resulta numa frase que um amigo meu em Lisboa uma vez me disse: «Quantos mais obesos houver, mais trabalho há para nós. Do que te estás a queixar?». E é triste que seja a verdade.
Ricardo Silvestre /3-6-04

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