Opinião no site do JPCoutinho
PORTUGAL-U.S.A.
Estou em Porto Covo, Costa Vicentina, Portugal. Estou em Springfield, Massachussetts, Estados Unidos da América. No primeiro caso, uma bela praia portuguesa. No segundo, um misto de parque aquático e parque de diversões (os famosos Six Flags). Constatação crua que me estraga o resto do Verão. As crianças portuguesas estão iguais às americanas. E não falo no mais evidente, a berraria, a falta de modos, a má educação. Falo da composição corporal. Falo da quantidade de gordura dos petizes. Então na faixa de idades dos 12 aos 14 - e é um completo desastre. Dois países, a mesma geração, alimentada a quantidades industriais de açúcar. Todos anafados, todos ofegantes, todos gulosos. As barrigas passam por cima da bainha dos calções de praia, as coxas fazem lembrar o «Senhor Michelin». Todos agarrados às coca-colas, aos donuts, aos chocolates, aos gelados. Uma conclusão mais fria deste cenário é a convicção de que estamos, em Portugal, metidos num belo sarilho. Ou controlamos a epidemia da obesidade, ou o sistema de saúde entrará, inevitavelmente, em colapso. Não podemos deixar que os abusos da abundância continuem desta forma. É verdade que na barriga do João, manda o João, mas a que preço? É talvez verdade que «a legislação não pode salvar os seres humanos deles mesmos» e que a gula é «pura irresponsabilidade do palato» (JPC 19/12/03), mas com que encargo para a sociedade? Nos Estados Unidos, o cidadão têm de pagar para ter o seu seguro de saúde. Se quer cometer abusos, o problema é exclusivamente seu, uma vez que vai ter de pagar mais para ter os mesmos serviços. Se quiser engordar, esteja à vontade, uma vez que, quando for renovar o seu contrato com a empresa de seguros, existe uma escala que diz: para tantos centímetros de altura, tantos quilos de peso. E quanto mais o contratante pesar, mais têm de pagar. Quando esta geração de meninos e meninas estiver a padecer de diabetes, hipertensão, enfartes de miocárdio e o diabo a quatro, os grandes poderes económicos da «industria de saúde americana» até esfregam as mãos, só de pensar na quantidade de dinheiro que entra em caixa. E como funciona em Portugal? Eu não pretendo estar aqui a passar por iluminado, Ministro da Saúde ou das Finanças. Mas como vai ser quando, e graças aos encantos do socialismo onde a nossa sociedade foi fundada, o Estado tiver de gerir todos os milhares de cidadãos, que no lugar de estarem saudáveis e ajudarem o país a produzir, estarão a ocupar camas de hospitais, urgências em Centros de Saúde, a receber subsídios para os medicamentos, para os supositórios, para as fraldas? É preocupante como, certas facções ideológicas continuam a defender a manutenção de serviços estatais que serão, a médio prazo, impossíveis de providenciar. Ou então, será a carga fiscal naqueles que pagam impostos a fazer sobreviver um sistema disfuncional. Estará na altura de começarmos a exigir revoluções «capitalistas» em Portugal? «Opção de não descontar para o SNS já!». «Os gordos que paguem a crise!» «Não suporto um lambão, de mim nem mais um tostão!». Estou a brincar, mas é um assunto grave.

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