Friday, October 22, 2004

Opiniao no site do JPC

No site do JPC, um comentario de uma "cliente habitual" da seccao Juizo Final foi me dirigido, e que explicava o seguinte:

» Ricardo Silvestre: numa simples observação da realidade e numa rápida análise da minha própria experiência de vida, parece-me que sim, que evoluímos num sentido mais pragmático. Tempos houve em que ideologias, discussões, figuras e comícios políticos me empolgavam para lá do razoável. Sair da infância em períodos conturbados, em que se vivem e discutem descolonizações, revoluções e democracias, é excitante e inebriante. Todavia, hoje consigo empolgar-me mais com a perspectiva do visionamento do Shrek 2 do que com qualquer debate ideológico. Os telejornais maçam-me terrivelmente e um discurso do PR tem em mim o efeito do Valium. O que falta em motivação, calor, objectivos, causas e interesse, sobra em desinteresse. Acho que é isso que me leva a achar Alberto João Jardim o must da nossa vida política. Mantém-me acordada. Em todo o caso, para estarmos mais pragmáticos, das duas, uma: ou foi a crise ideológica que nos tornou mais pragmáticos; ou foi o pragmatismo que nos tornou menos idealistas. O pragmatismo é causa ou consequência?
Cristina Costa Pinto

Ao que eu respondi:

Não querendo fazer do “Juízo Final” uma secção de correspondência pessoal, e se o João não se importar (e a qualquer momento pode intervir), deixava-lhe aqui umas ideias próprias, e outras emprestadas, relativamente ao que pergunta no último comentário que fez e que me era dirigido. Sendo nós os dois de gerações muito próximas, lutamos contra o estigma de sermos os “filhos do meio da história” (Fight Club). Não tivemos nenhuma grande guerra, não tivemos nenhum grande sacrifício, nenhuma causa pelo que valesse a pena lutar e morrer. Somos uma cultura “infectada pelo vírus da vulgaridade” (JPC), massificada por uma revolução industrial já optimizada, por uma globalização demasiado fácil de construir, por uma facilitação que distorceu uma certa carga genética: já não temos que correr para caçar, já não armazenamos gordura para sobreviver ao Inverno. Tirando alguns (poucos), não se lê, não se pensa, não se investiga. Passamos o nosso tempo a consumir tudo o que nos aparece à frente, confiantes que estamos que tudo vai durar para sempre. Não acreditamos em nada. Não defendemos coisa nenhuma. E assim será até ao fim do nosso “tempo útil”. Vamos apanhar por tangente as grandes causas que estão para vir: o colapso dos sistemas sociais (saúde, educação, segurança social), o final do petróleo e a necessidade do engenho humano para criar combustíveis alternativos, as invasões das hordas de desesperados e descontentes, o escalar do terrorismo como arma de ataque por qualquer miserável que ache que têm justificação para o fazer. Serão as gerações que agora têm como “causas” as MSN, os chats, o FIFA05, o Hip-Hop e os “reality shows”, que vão ter de recuperar esse sentimento que a Cristina se interroga para onde foi. Quanto a nós? Continuaremos com o dedo no comando da TV, “continuaremos a vender o futuro, quando não há futuro para vender” (Devils Advocate), continuaremos arrivistas e despreocupados. Não interprete as minhas palavras como cinismo. De certa forma, eu luto para que as coisas não sejam assim. Eu desejo que a ciência seja uma preferência. Eu gostava que a ecologia fosse uma preocupação. Que a qualidade de vida fosse uma prioridade. Mas receio bem que, todas as minhas convicções, todas as minhas teorias, todas as minhas filosofias, se encaminhem docemente para um niilismo confortável e tranquilo. Sobra o JPCoutinho.com como um espaço de combate, rudeza e da “coisa” politicamente incorrecta; afinal as “grandes causas” que nos sobram no meio de tanto comodismo. Respondendo a “ o pragmatismo é causa ou consequência?” eu diria que não é uma coisa nem outra, e ao mesmo é as duas coisas. Eu sei que a resposta não satisfaz, mas é o que lhe posso oferecer.
Ricardo Silvestre.

E o que tu(!) achas?

Carpe Diem

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