Dream come true
Madison Square Garden. O MSG. O Jardim da Praça Madison. 3 De Novembro de 2005. A realização de um desejo de 13 anos. Parece que a maior parte dos meus desejos tem ligações com os Estados Unidos, mas isso será uma conversa para mais tarde.
Após uma bem sucedida chegada a Nova York de carro, a segunda vez que o faço sem ser apenas ir ao aeroporto de JFK para ir buscar alguém, entro na ilha de Manhatan sem me perder uma única vez, ou sem me ter enganado na saída (ei, NY não é Lisboa) e é com grande entusiasmo que entro na estação de Metro da 168 com a Broadway, com destino a rua 42. E porque essa rua? Porque quando se sai do Metro deparamos com todo o esplendor de outra praça (“square” no original) que dá uma beleza muito própria a “grande maça”, falo claro, do Times Square... oh, já tinha falado antes no TS? Sério? Era capaz de jurar...
E a parte engraçada é que paro no TS, para ver as horas. E não estou a brincar. Nada mau ter uma opção assim (sim, sim, chega de provocações, tenho de pensar naqueles que ainda não vieram cá : P )
Às 18.30 estou religiosamente com o meu bilhete em punho à porta de outro "monumento" tão conhecido “lá de casa”. Para quem é menos feito nestas coisas, o MSG é a casa dos Knicks (NBA), dos Rangers (NHL) e de tudo o que é concerto aqui na cidade. Quantas vezes em Portugal ouvimos os comentadores dizer “que o MSG é a arena mais famosa do mundo”? Pois aqui o vosso correspondente favorito das “Américas”, depois de previamente “controlado” pela segurança do Pavilhão, e da confirmação da validade do bilhete, vi-me dentro do MSG, e mais, com assento mesmo no meio da arena, por debaixo do marcador electrónico gigante que se encontra no tecto (uma pessoa nunca deixa de pensar se aquela coisa está bem segura, ou não).
As 7.30, dois “miúdos” (não podiam ter mais de 20 anos cada um) fazem uma barulheira insuportável, com muita “cacetada” numa bateria, muito ruído numa guitarra, e muita berraria para um microfone. O MSG por esta altura esta a 1/3 da capacidade, o que faz a coisa ser ainda mais dolorosa. Os meus ouvidos começaram a sangrar após as primeiras 3 músicas, e pela 5, já estava a olhar para o marcador electrónico a pensar que se calhar a coisa até dava jeito cair mesmo.
Após meia hora de muito suplício, o que está na bateria, lá se enerva com a coisa e lança o banco onde estava sentado contra os tambores, enquanto o da guitarra lança a mesma ao ar (podia meter aqui outra vez a piada do marcador electrónico – mas por esta altura já estava com o miolo derretido).
Finalmente lá veio a calmaria, enquanto o palco era mudado para a actuação dos
“Rainha da Idade da Pedra”. E não estamos a falar do rancho folclórico de Piódão. Voltando a coisas sérias, fui apanhado algo de surpresa. Os QSA “aqueceram bem” a metade da capacidade máxima da arena que resolveu chegar mais cedo, com um conjunto de músicas muito agradáveis, e com alguma “provocação” a mistura. Claro que o momento mais alto foi quando o vocalista dedicou uma música a cidade de NY, que seria sempre “a mais bela cidade do mundo”. E foi quase desta que o marcador caía (por esta altura o meu cérebro já estava a funcionar com normalidade).
Quando os QSA saem de palco, nota-se este nervosismo no ar, esta ansiedade, expectativa. Mesmo se ainda estamos a meia hora de distância, o MSG parece um interior de um grande animal, que vibra e resfolga. Há dentro da arena um sentimento de grandiosidade e de excelência que me deixa avassalado. Apesar de já ter estado em alguns eventos como estes, deste vez há uma certa palpabilidade, uma especifica tangibilidade que me toma de assalto.
As 9.30, e com o palco escondido entre fumos de “gelo seco” e tapado com uma cortina espessa, os primeiros acordes de “All you can leave behind” e que eu conheço tão bem (ah! Os meus manos lindos que me ofereceram o DVD mais espectacular de sempre) causam que a arena irrompa num tumulto arrepiante. A guitarra com o som pesado e arrastado, faz cada nota atravessar a arena de um lado ao outro, abrindo o peito e enchendo os pulmões. E eis que aparece o “messias”, o “mestre”, o “génio” (e podia vos aborrecer até ficarem doentes com os adjectivos que posso encontrar para o descrever).
“O” descrever, é claro, Trent Reznor. E alguns de vocês aproveitam agora para fechar a janela do Word, cansados que estão de tanta referência aos Nine Inch Nails. Esperem, deixem-me escrever isto novamente (mas agora só o acrónimo) NIN. Esperem, mais uma vez. Os NIN. Só mais uma... os NIN.
Daqui para a frente posso escrever só coisas sem nexo e desgarradas. Mas fico-me pelo essencial. Gritei que nem um miúdo pequeno. Saltei como se fosse um adolescente, elevei os meus braços no ar como se tivesse marcado o golo decisivo no campeonato do mundo. Assobiei até me faltar o ar, cantei até ficar rouco, dei “high fives” com pessoas que nunca vi, dancei com raparigas que não conheço. “Bebi” com os olhos, com os ouvidos (interno e externo) e com o coração. Que vibrava loucamente, e não era só por causa dos decibéis dos altifalantes.
No fim de duas horas e meia de loucura pura, de satisfação grandiosa, o final apoteótico: “bow down to the one you serve, you are going to get what you deserve” (faz uma vénia perante aquele a quem obedeces, irás receber o que mereces) e eu fiz a vénia, sem vergonha, sem pudores, sem hesitações. Eu e mais 15 mil pessoas, a receber tudo aquilo que podia nos ser oferecido, entretenimento, emoção, partilha, devoção, entrega. E para mim em especial, “recebi” mais uma experiência inesquecível em 35 anos de vida.
“Come on tell me!!!... you make this all go away
you make it all go away, I’m down to just one thing
and I’m starting to scare myself.
You make it all go away, you make it all go away,
I just want something, I just want something
I can never have…
I just want something...
I can never have.”

