Tuesday, January 31, 2006

Regresso a Portugal

Mais uma viagem para esse lado. Mais uma vez que parto para uma terra da qual já nem me lembro do cheiro, do sabor, da luminosidade. Tem sido 8 meses de Connecticut, tem sido o laboratório, a casa, a casa, o laboratório. Tem sido o frio e a neve, as recolhas e os dados. Foi um período da minha vida. Encerrado. Mas presente. Ganhei as minhas divisas nesta era: académicas, científicas, mas principalmente, humanas.

Parto então para NY e para Newark. Passadas algumas horas estarei a aterrar na Portela. O meu pai, fiel pai, lá estará, a minha espera, com aquela expressão tão particular de “foi ontem que te deixei aqui, e passou só um dia desde que partis-te” (o meu pai despede-se de mim ao telefone cada vez que falo com ele com “até amanhã”, e sabe bem a cada vez). E o meu mano Daniel. Com aquela cumplicidade entre irmãos que se mantém intocável pela distância.

Já não me lembro de Portugal. Não no sentido literal do termo, claro. Mas no sentido visceral. Lembro-me de o que é passear em Cascais ou em Sintra, lembro-me da face dos meus melhores amigos, lembro-me da família, dos lugares da família. Mas não os sinto. Não os materializo. Está portanto na altura de voltar. Na altura certa.

Portugal é também, e ao mesmo tempo, “muro de lamentações” insuportável. As pessoas que prometem ser fortes e seguras, e que descambam na mesquinhice e na pequenez do que as rodeia. Que prometem ser destemidas e resistentes, e que depois mostram que não há nada para além daquela primeira investida, do primeiro “grito”. Pessoas vazias de propósito, de qualidade, de consistência. Essas pessoas, que passam pela nossa vida, como provas acabadas que estaremos sempre do lado errado das coisas, acabam depois por provar que estávamos correctos o tempo todo. Estou curioso para percepcionar pessoalmente aquilo que muitas pessoas também me têm descrito ultimamente. Que o país está miserável, triste, deprimido. Que nos arrastamos paulatinamente para um abismo, que todos conhecem, mas que ninguém combate. Eu, que sou de direita, terei então de gritar “revolução”?! Quem está comigo?

Parto então para Portugal. O OMDA já morreu há algum tempo. Não sei quanto tempo ficarei em Portugal (tenho de voltar para escrever a tese de Doutoramento e poder marcar datas para a defesa pública), e parte do tempo em Lisboa será a procura de um novo emprego (sim, porque no sistema Português, ter um Doutoramento é esperar que se volte ao local onde se começou... e que se fique por lá – não obrigado). Mas quero estar sempre, com aqueles que queiram estar comigo. A vossa companhia, é que o faz a realidade tomar de novo forma.

Wednesday, January 18, 2006

AUUUU

Dei uma conferência de imprensa a publicitar o meu abandono do basquetebol!

Estava a jogar aqui na Univ, e na luta por uma bola perdida, a minha cabeça e um cotovelo de outro jogador resolveram encontrar-se a meio caminho e a toda a velocidade. Resultado. Traumatismo ligeiro, e 7 pontos no sobrolho, onde 3 deles tiveram de ser “profundos” de maneira a eles me fecharem a ferida, antes de me coserem.

Belo serviço. Parecia que tinha o Grand Canyon entre a sobrancelha e o olho. A minha sorte é que fui prontamente assistido pelo médico do Departamento Desportivo que fez um trabalho fantástico, e apesar da impossibilidade de me alterar o nariz batatudo, as bochechas redondas e o segundo queixo, lá fechou a ferida. Mas mesmo assim, tenho aqui um risco que vai ficar para “recuerdo”.

Vou-me mas é dedicar a pesca!!

Sunday, January 15, 2006

troca de e-mails

Ultimamente as pessoas têm me perguntando com alguma frequência “se eu consigo resumir estes 3 anos e meio numa só ideia, num comentário, num exemplo”. E eu tenho pensado seriamente no que posso responder a uma pergunta dessas. E a comparação que encontro é algo exagerada e se calhar injusta, mas tirar este Doutoramento deve se assemelhar um pouco a ir a um painel de médico que dizerem-nos que temos um cancro, mas que existe uma cura. Mas para isso terá de lutar bravamente todos os dias. Nunca deixar de acreditar que a cura é possível. Colocar todas as energias, toda a dedicação, toda a força de vontade nesse objectivo. Há dias bons. Há dias maus. Há dias muito maus. Há momentos em que terá vontade de desistir de tudo. Há momentos em que irá pensar “porque?”. Há momentos de vitória. Há momentos de aflição. Há momentos de vazio. Há momentos de muita alegria.

O que escrevo aqui não podia ser mais verdade depois do que tive de passar durante este último semestre, onde tive de realizar os meus exames escritos e orais para acesso ao grau de “Doutorando”, tive de criar o meu projecto de tese de Doutoramento, defende-la publicamente e perante o meu júri, construir o projecto de raiz, recrutar participantes, organizar equipas de investigação, supervisionar todo o processo de recolha de dados, etc. Quanto te escrevo estas linhas, passaram 48 horas desde que recolhemos a última amostra sanguínea. Num total de 576 amostras durante um período de dois meses e meio.

Estou agora num período de maior tranquilidade, uma vez que, com o estudo terminado, “só” fica a faltar a análise dos dados, e a redacção da tese de Doutoramento propriamente dita. O título da mesma é: “Efeitos de exercício a diferentes alturas do dia na diminuição da quantidade de triglicéridos no sangue e no aumento da competência arterial, durante a digestão de uma refeição rica em gordura” (em Inglês soa mais impressionante).

Numa pincelada, gostava de te dizer que, esta “experiência de vida”, muito rica em muito mais coisas, serviu essencialmente para, não tanto obter um grau de Doutor (que ainda não sei muito bem o que trará), mas para ter descoberto toda a minha capacidade, todo o meu potencial, todo o meu valor. Numa meio único, onde só os melhores conseguem triunfar, eu posso olhar para mim mesmo no espelho, e pensar que “tinha dentro de mim o que era preciso para superar o maior desafio da minha vida”.