Regresso a Portugal
Mais uma viagem para esse lado. Mais uma vez que parto para uma terra da qual já nem me lembro do cheiro, do sabor, da luminosidade. Tem sido 8 meses de Connecticut, tem sido o laboratório, a casa, a casa, o laboratório. Tem sido o frio e a neve, as recolhas e os dados. Foi um período da minha vida. Encerrado. Mas presente. Ganhei as minhas divisas nesta era: académicas, científicas, mas principalmente, humanas.
Parto então para NY e para Newark. Passadas algumas horas estarei a aterrar na Portela. O meu pai, fiel pai, lá estará, a minha espera, com aquela expressão tão particular de “foi ontem que te deixei aqui, e passou só um dia desde que partis-te” (o meu pai despede-se de mim ao telefone cada vez que falo com ele com “até amanhã”, e sabe bem a cada vez). E o meu mano Daniel. Com aquela cumplicidade entre irmãos que se mantém intocável pela distância.
Já não me lembro de Portugal. Não no sentido literal do termo, claro. Mas no sentido visceral. Lembro-me de o que é passear em Cascais ou em Sintra, lembro-me da face dos meus melhores amigos, lembro-me da família, dos lugares da família. Mas não os sinto. Não os materializo. Está portanto na altura de voltar. Na altura certa.
Portugal é também, e ao mesmo tempo, “muro de lamentações” insuportável. As pessoas que prometem ser fortes e seguras, e que descambam na mesquinhice e na pequenez do que as rodeia. Que prometem ser destemidas e resistentes, e que depois mostram que não há nada para além daquela primeira investida, do primeiro “grito”. Pessoas vazias de propósito, de qualidade, de consistência. Essas pessoas, que passam pela nossa vida, como provas acabadas que estaremos sempre do lado errado das coisas, acabam depois por provar que estávamos correctos o tempo todo. Estou curioso para percepcionar pessoalmente aquilo que muitas pessoas também me têm descrito ultimamente. Que o país está miserável, triste, deprimido. Que nos arrastamos paulatinamente para um abismo, que todos conhecem, mas que ninguém combate. Eu, que sou de direita, terei então de gritar “revolução”?! Quem está comigo?
Parto então para Portugal. O OMDA já morreu há algum tempo. Não sei quanto tempo ficarei em Portugal (tenho de voltar para escrever a tese de Doutoramento e poder marcar datas para a defesa pública), e parte do tempo em Lisboa será a procura de um novo emprego (sim, porque no sistema Português, ter um Doutoramento é esperar que se volte ao local onde se começou... e que se fique por lá – não obrigado). Mas quero estar sempre, com aqueles que queiram estar comigo. A vossa companhia, é que o faz a realidade tomar de novo forma.

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